André Filipe, Aefe!
Eu subia o rio numa voadeira de motor 40 acompanhado de um missionário experiente. Com o mapa da região na mão, eu acompanhava cada comunidade que aparecia, entre montes de pedras e florestas. Ele fazia às vezes de guia turístico do Evangelho:
- Esta é a aldeia tal, da etnia tal: sem qualquer presença evangélica. Esta é a aldeia tal, da etnia tal: há o NT na língua, e há crentes, mas não há lideranças locais, nem pastores. Etc.
Grande parte das aldeias da Amazônia não são apenas não evangelizadas, mas são uma amostra dos últimos e mais difíceis povos a serem alcançados, por inúmers motivos: línguas complexas para serem aprendidas e grafadas; culturas e cosmovisões radicalmente distantes da Ocidental e, pior, da bíblica; acesso difícil e muito caro; áreas politicamente fechadas para “brancos”; áreas protegidas (leia-se com perseguição psicológica e política) pelo catolicismo e pela Academia; um povo a ser evangelizado extremamente adaptado à estrutura paternalista em que o “branco” é rico e deve dar tudo o que for necessário à aldeia; língua e cultura com pouquíssimos falantes se comparados a outros povos do mundo.
Eu olhava para aquela quantidade de povos marcados no mapa com necessidade missionária e pensava:
- Meus Deus, quem virá apresentar-lhes o Evangelho?
Minha perplexidade tinha mais motivos: eu já tinha conhecido missionários e colhido histórias suficientes para entender que era um trabalho sobrehumano. Histórias de missionários estrangeiros da década de 40 e 50 que entregaram seus melhores 50-40 anos de suas vidas a essas aldeias sem, algumas vezes, ver um único convertido, ou uma igreja plantada. Histórias de famílias com 5 ou 10 anos de trabalho, totalmente estafadas com os inúmeros trabalhos acumulados, pela ausência de uma equipe maior e preocupados vendo a idade escolar dos filhos chegando. Histórias de mulheres solteiras que, apesar de desejarem formar família, abriram mão de seus anseios e encaram dia-a-dia corajosamente líderes regionais e tuchauas (líderes indígenas) perigosos, além de viverem em um contexto em que uma mulher sozinha não tem voz. Mas elas falam e perseveram na obediência ao Senhor. Além de estatísticas assustadoras da diminuição de novos missionários nos últimos anos que, além de não abrirem novos campos, os missionários que chegam sequer tem dado conta de continuar o trabalho dos missionários aposentados.
- Quem apresentará o evangelho aos mais difíceis?
Era também porque eu conhecia a mim mesmo e à minha geração. Falando de maneira geral, somos uma geração mais rica que as anteriores, mas dinheiro não proclama Jesus Cristo; uma geração mais estudada; mas diplomas não testemunham do Evangelho; e assim, ainda generalizando, uma geração cada vez mais dependente dos recursos da cidade grande, cada vez mais dependente de remédios, conforto, entretenimento e facilidades diárias que a torna totalmente desimunizada, desprotegida e sensível ao mais leve sofrimento; entretida demais para encarar a solidão profunda do campo; confortável demais para encarar mesmo um “banheiro natural”; especializada demais para construir uma casa no meio da floresta, passo a passo, sozinho; protegida demais para enfrentar, que seja, uma corredeira violenta ou uma noite cercada de milhares de mosquitos; apegada a bens materiais demais para gastar fortunas do próprio sustento escasso com o ministério; impaciente demais para aguentar uma comunidade ímpia com amor e compreensão; apressada demais para encarar o ritmo da floresta; inconstante demais para investir que seja 20 anos num único lugar com um único povo; glamourosa demais para viver uma vida sem esperar reconhecimento. Os povos mais difíceis exigem os maiores sacrifícios e está nas mãos de uma geração cada vez mais distante deles.
- Quem irá aos mais difícieis? Calebes os têm alcançado.
Em Js. 14.5-15, vemos Calebe, um homem velho, porém rejuvenescido pelo Senhor. Sua geração havia renegado a promessa de Deus por medo dos gigantes. A geração dizia: o trabalho missionário é bonito, o trabalho missionário é de Deus, mas temível, difícil demais! No trabalho missionário há gigantes terríveis! Porém, Calebe se pôs na frente e disse: “Subamos e tomemos posse da terra. É certo que venceremos!” – Nm.13.30, NVI.
Por causa da infidelidade daquela geração, o Senhor os renegou e somente Josué e Calebe, valentes e fiéis, viram a Terra Prometida. Outra geração chegou, que conquistou grande parte da terra prometida, porém faltavam ainda os mais difíceis, justamente aqueles que a geração anterior havia temido, a terra dos gigantes. Mas a nova geração não estava preparada para os gigantes, pois “os jovens se cansam e ficam exaustos, e os moços tropeçam e caem; mas aqueles que esperam no Senhor renovam as suas forças” (Is.40.30-31, NVI). Calebe esperava no Senhor e aos 85 anos trouxe abaixo uma cidade de gigantes guerreiros. Calebe foi valente por aceitar o desafio proposto por Deus a ele, o desafio dos povos mais difíceis.
Por outro lado, em Jz. 1.27-36 vemos muitos povos que ainda ficaram sem serem conquistados, como o Senhor havia mandado, e a Palavra expõe a lista da vergonha, a lista dos desobedientes como um emblema de que em cada geração há aqueles que não aceitam a batalha ministerial proposta por Deus, mas, apesar disso, o Senhor tem separado, preparado e renovado seus guerreiros valentes para os mais difíceis.
Na marcha triunfante do Rei Jesus, não quero meu nome na lista da vergonha, quero estar na mesma comitiva de Calebe; mas antes disso, preciso responder a um desafio de um companheiro dele:
“Se, porém, não lhes agrada servir ao Senhor, escolham hoje a quem irão servir, se aos deuses que os seus antepassados serviram além do Eufrates, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra vocês estão vivendo. Mas, eu e a minha família serviremos ao Senhor” – Js. 24.15, NVI.